quarta-feira, 25 de março de 2026

... e fiquei com o coração quentinho...


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Canção do Medo

 Minha mãe como não morro

À vista desta carnagem

Dou por mal paga a viagem

A tais foguetes não corro

 

Não sei dos meus lavagantes

Nem da mulher que me espera

Quero sair desta guerra

Mesmo agora neste instante

 

Ai carnes do meu padrinho

Podeis tremer à vontade

Que a vida do teu sobrinho

Vale bem a tua idade

 

E mais a tua canseira

Em me ensinares que não dorme

Aquele que mata a fome

A quem só tem caganeira

 

Livra-me dos teus cuidados

Rezo dois mil padre-nossos

Assim me cuidem dos ossos

Sejam eles mil diabos

 

Agora tenho cagaço

Como quando era menino

E me tolhiam os braços

Temores ao verbo Divino

 

Levanta ferro meu corpo

Vê se podes dar um passo

Valham-me todos os santos

Das caminhadas que faço

 

Tão pouco pode a natura

Nestas afrontas mortais

Que um homem morre mil vezes

Mil e uma é já demais

 

Letra e Música: José Afonso

Álbum: Como Se Fora Seu Filho (1983)