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quinta-feira, 1 de maio de 2008

eles não podiam escapar

"... a demasiada oportunidade em demonstrarem os seus sentimentos proibia-lhes que falassem de amor, e mesmo foram-se habituando a um tipo de relações em que intervinha sobretudo um vexame de cumplices que a razão não aproximou. Pretendiam, ao ignorar que se amavam, afastar a ideia de terem aceitado favores apenas de coração. Mas todos os estados de alma exasperados conduzem ao amor, porque são afinal a ocupação exagerada dos outros. Eles não podiam escapar."
Agustina Bessa-Luís in "O Manto" (1961)

terça-feira, 22 de abril de 2008

pequenas causas

(...)

- Não me beije - (...) - os beijos são um gesto mais, ao serviço das pequenas causas. Tenho um amigo que diz isso. Às vezes zango-me com ele, são zangas terríveis, não nos falamos durante quinze dias, e depois percebo que não estava zangada, mas que só procurava o desacordo com ele para não ficarmos parados nos sentimentos.


Agustina Bessa-Luís in "O Manto" (1961)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

aversão aristocrática




"Aliava sempre às mulheres uma impressão de certa aversão aristocrática, como se todas fossem demasiado vulgares nas sua invenções e impróprias para a inteligência da sensualidade; mas ao mesmo tempo, a vida completamente isolada da presença feminina causava-lhe pavor, e frequentemente se via Camilo empenhado num idílio intelectual em que imitava furtivamente as nuances do amor, o ciúme, o despeito ou o devaneio cavalheiresco. Camilo e as mulheres, era um diálogo quase trágico; e, se as divinizava algumas vezes, era para não ter que se ocupar delas."


Agustina Bessa-Luís in "O Manto" (1961)






terça-feira, 15 de abril de 2008

farol de multiplos espelhos

"Nenhum homem diga que conhece a feminilidade se apenas tomou contacto com as mulheres no leito, na oficina ou na escola; a feminilidade é outra coisa que não o sentimento do sexo oposto ou a experiência comum, é talvez a própria acção de existir, uma forma incorrupta de amar e uma expansão total da realidade. A feminilidade não é um rosto, uma indole; é uma transfiguração da aparência, uma liberdade que gira no seu eixo, como um farol de multiplos espelhos..."





Agustina Bessa-Luís in "O Manto"