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sábado, 2 de janeiro de 2021

meninos satisfeitos

 "A forma mais contraditória que pode aparecer na vida humana é a do "menino satisfeito". Por isso, quando se torna figura predominante, é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se encontra ameaçada de degeneração; quer dizer, de morte relativa.

[…]

Isto, penso, faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que o "menino satisfeito" representa. Porque é um homem que veio à vida para fazer o que lhe dê na gana. Com efeito: é esta a ilusão que o "menino bem" tem. Já sabemos porquê: no âmbito familiar, tudo, até os maiores delitos, podem ficar, em ultima instância, impune. O ambiente familiar é relativamente artificial e tolera no seu seio muitos atos que na sociedade, no ar da rua, trariam automaticamente consequências desastrosas e ineludíveis para o seu autor. Mas o "menino" é aquele que julga poder comportar-se fora de casa como em casa, aquele que julga que nada é fatal, irremediável e irrevogável. Por isso crê que pode fazer o que lhe apetece.*

*O que a casa é face à sociedade, é-o em maior escala a nação face ao conjunto das nações. Uma das manifestações simultaneamente mais claras e volumosas do "meninismo" vigente é, como veremos, a decisão que algumas nações tomaram de "fazer o que lhes apetece" na convivência internacional. A isto chamam ingenuamente "nacionalismos". E eu, que detesto a submissão beata à internacionalidade, por outro lado acho grotesco esse "meninismo" transitório das nações menos maduras."

Ortega y Gasset in A Rebelião das Massas (1930)



quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

"altitude de pretérito amontoado"




  O homem não é nunca um primeiro homem: começa logo a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. É este o tesouro único do homem, o seu privilégio e a sua marca. E a menor riqueza desse tesouro consiste no que dele parecer acertado e digno de ser conservado: o importante é a memória dos erros que nos permite não cometer sempre os mesmos. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros, a longa experiência vital decantada gota a gota durante milénios.

[...] E isto é ser um povo de homens: poder continuar no seu ontem sem deixar por isso de viver para o futuro, poder existir no verdadeiro presente, já que o presente é só a presença do passado e do porvir, o lugar onde o pretérito e futuro efetivamente existem."

Ortega y Gasset in  A Rebelião das Massas (1930)