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quinta-feira, 7 de abril de 2022

Luv u

 "Deixou-me com o Amo-te escrito em letra normal no ecrã do telemóvel, sem corações, trevos da sorte, ursinhos com os olhos em formato do coração. Amo-te. Escorraçando os simulacros do amor, deixando que a palavra se impusesse poderosa, uma fisga que me arrancava do desconfortável presente para me arremessar esperançosa num futuro feliz. Quantas vezes me tinham dito, Amo-te? Poucas, dolorosamente poucas. Os rapazes com quem andei antes do Jorge não tinham idade nem sentimento para tal, o Jorge resguardava-se no protegido Luv u, e os outros Jorges do Tinder não serviam para essas coisas. Mas o Duarte dissera Amo-te, a palavra das fotonovelas da mamã, das sopeiras e dos marujos, a palavra que raramente se dizia por ainda ser cedo para se dizer ou já ser tarde, a palavra que soava mal por o amor não ser português ao contrário da saudade, o Duarte escrevera Amo-te e a palavra segurara-nos os corpos com um tracinho, Amo-te, nada havia mais poderoso do que a doce prisão do amor que ao nos atar a outro, outro nos faz, mesmo que seja a fingir. Não sabendo o que responder, e lembrada da escusada sinceridade do Jorge, escrevi, Eu também. O Duarte respondeu-me prontamente, O teu amor está desfasado do meu vinte e seis minutos, não tem mal, acabaremos por acertar-nos."

Dulce Maria Cardoso in Eliete - a vida normal



sexta-feira, 18 de março de 2022

as noites em bruto

 "Não sabia o que me magoava mais, se a afronta de o Jorge se meter com outras, sabendo que eu podia ver, se a humilhação de os nossos amigos comuns poderem assistir àquilo. Parecia que o meu sofrimento nunca mais teria fim, todos os dias havia posts novos, gostos novos, fotografias novas, novas amizades, eu podia reler as conversas, analisar os emojis, os tempos de resposta, procurar os perfis das outras, ver-lhes as fotografias, Olha-me a figura em que se põe esta putéfia, ouvia-me com a voz da mamã e nem isso me parava. Com o tempo, fui-me habituando e deixei de fazer fitas, sempre me habituei facilmente ao que não podia mudar. Mas nunca fiquei imune à felicidade que as putéfias exibiam nos seus perfis, à infinidade de outras vidas que, de repente, se tornavam acessíveis, temia que a nossa, a minha e a do Jorge, uma vida real e não editada, não aguentasse a pressão das vidas virtuais, temia que os corpos não editados das outras vencessem o meu corpo que, tão imperfeitamente real, se deitava todas as noites em bruto ao lado do Jorge".

Dulce Maria Cardoso in Eliete - A vida normal


quinta-feira, 17 de março de 2022

os maridos das outras

 "Que sortuda, a mulher dele, pensei, não tem de ver o marido a beber litros de cerveja enquanto assiste aos jogos, não tem de ouvir-lhes as ridículas imprecações contra o que considera ter sido uma má jogada nem o riso gutural quando lê o que os amigos dizem no Facebook, a achincalharem os clubes rivais, que sortuda, a mulher dele, por não ser testemunha da raiva absurda que o marido gosta de sentir pelos árbitros, que sortuda por não estar casada com o Jorge, que sortuda por não ser eu."

Dulce Maria Cardoso in Eliete - a vida normal




coisa boa, os clubes de leitura, que nos preenchem os dias cheios de poeiras.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

fuga

Cópia romana em mármore (torso e coxas) com a cabeça, braços, pernas e apoio de roupagem restauradas no Louvre, por Praxíteles.

 

Fevereiro
9

MÁRMORE QUE RESPIRA

Afrodite foi a primeira mulher nua na história da escultura grega.
Praxíteles esculpiu-a com a túnica caída aos seus pés, e a cidade de Cós exigiu que ele a vestisse. Mas outra cidade, Cnido, deu-lhe as boas-vindas e ofereceu-lhe um templo; e em Cnido viveu a mais mulher das deusas, a mais deusa das mulheres.
Embora estivesse entre paredes e muito bem vigiada, os guardas não conseguiam evitar a invasão dos que estavam loucos por ela.
Num dia como o de hoje, farta de tanto assédio, Afrodite fugiu.

Eduardo Galeano in Os Filhos dos Dias

terça-feira, 17 de agosto de 2021

talking heads

"Hesitar sempre foi um projecto de vida para alguns. Ser capaz de continuar a hesitar até ao fim, eis o difícil. Por vezes, um homem chega ao meio da vida e desata a correr como se soubesse para onde vai. Outros não o fazem, e a sabedoria é isto: no momento da partida excitante e rápida pára-se para apertar os atacadores. Hesita-se por falta de equipamento para a decisão. Não estou equipado para a prática desportiva da decisão. Eis, pois, que digo simpaticamente: ganhe você, por favor. O que de certa maneira é isto: eu não tenho tempo para ganhar, estou tão ocupado a hesitar que fico aqui, em redor do nada, de modo a ter uma referencia negativa. Quando vir qualquer coisa que me excite devo virar-lhe as costas; quando me estiver a entediar, é aí que eu fico."

Gonçalo M. Tavares in Matteo perdeu o emprego



segunda-feira, 19 de abril de 2021

As nações têm o crânio bem ou mal feito segundo as suas instituições*

 Senhores, cortam-se por ano cabeças demais em França. Pois que andais a fazer economias, fazei mais uma com isso.

Pois que estais em veia de supressões, suprimi o carrasco. Com o soldo dos vossos oitenta carrascos, pagareis seiscentos mestres-escolas.

Pensai no grosso do povo. Escolas para as crianças, oficinas para os homens.

Sabeis que a França é um dos países da Europa onde há menor número de nativos que sabem ler?

O quê? a Suíça sabe ler, a Bélgica sabe ler, a Dinamarca sabe ler, a Grécia sabe ler, a Irlanda sabe ler, e a França não sabe ler! É uma vergonha.

Ide às prisões. Chamai para a vossa volta todos os forçados. Examinai um a um todos esses condenados da lei humana. Calculai a inclinação de todos esses perfis, tacteai todos esses crânios. [...]. Ora, dessas cabeças mal formadas, o primeiro defeito está na natureza sem dúvida, o segundo na educação.

A natureza esboçou mal, a educação retocou mal o esboço. Voltai os vossos cuidados para este lado. Uma boa educação ao povo. Desenvolvei quanto puderdes essas infelizes cabeças, a fim de que a inteligência que está dentro possa aumentar.

[...]

Essa cabeça do homem do povo, cultivai-a, arroteai-a, regai-a, fecundai-a, iluminai-a, moralizai-a, utilizai-a; não tereis necessidade de a cortar.

Victor Hugo in Claude Gueux, 1834*



quarta-feira, 14 de abril de 2021

Palomar na sociedade

Acerca do morder a língua

Numa época e num país no qual todos se pelam por proclamar opiniões ou juízos, o senhor Palomar ganhou o hábito de morder a língua três vezes antes de fazer qualquer afirmação. Se, à terceira dentada na língua, ainda está convencido daquilo que estava para dizer, di-lo; se não, fica calado. Com efeito, passa semanas e meses inteiros em silêncio.

[...]

Mais controverso é o juízo que faz sobre o não ter manifestado o seu pensamento. Em tempo de silêncio geral, o conformar-se com o calar da maioria é certamente uma culpa.

[...]

De facto, o silêncio também pode ser considerado um discurso, enquanto recusa do uso que outros fazem da palavra; mas o sentido desse silêncio-discurso está nas suas interrupções, ou seja, naquilo que de vez em quando se diz e que dá sentido àquilo que se cala.

Ou antes: um silêncio pode servir para excluir certas palavras ou então para as manter de reserva, para que possam ser usadas em melhor ocasião.

Italo Calvino in Palomar, 1985


domingo, 28 de março de 2021

"a escrita não é mais do que pensar com o alfabeto"

vem este post a propósito do que ali se escreve, para meu deleite, e deste magazine, que na minha opinião peca por ter uma comentadora que se acha com grandes dotes de critica literária...


é do próximo livro a ler:

"Aprender a ler, escrever e contar e também isto: aprender a não cheirar. O lixo sobe, vão sair dali magníficos que impedirão que o mundo vá abaixo, mas tal só acontecerá porque os meninos suportaram o cheiro do que enoja de uma forma estóica: aprendi matemática apesar de cheirar mal pelo mundo inteiro; concentrei-me na exatidão, na lógica, nas vírgulas que arredondam ligeiramente os números. Estar atento às casa decimais apesar de estar rodeado do que é podre. Eis o homem e o seu século, mas isto talvez seja excessivo: nada se define com uma única frase (mas é óbvio isto: quanto mais pequena uma coisa, mais palavras necessita para a descrever. O mundo é uma brincadeira para o vocabulário de uma criança, já uma determinada folha de árvore ou um certo micróbio - eis coisas que exigem o longo discurso do especialista)."

Gonçalo M. Tavares in Matteo perdeu o emprego

sábado, 2 de janeiro de 2021

meninos satisfeitos

 "A forma mais contraditória que pode aparecer na vida humana é a do "menino satisfeito". Por isso, quando se torna figura predominante, é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se encontra ameaçada de degeneração; quer dizer, de morte relativa.

[…]

Isto, penso, faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que o "menino satisfeito" representa. Porque é um homem que veio à vida para fazer o que lhe dê na gana. Com efeito: é esta a ilusão que o "menino bem" tem. Já sabemos porquê: no âmbito familiar, tudo, até os maiores delitos, podem ficar, em ultima instância, impune. O ambiente familiar é relativamente artificial e tolera no seu seio muitos atos que na sociedade, no ar da rua, trariam automaticamente consequências desastrosas e ineludíveis para o seu autor. Mas o "menino" é aquele que julga poder comportar-se fora de casa como em casa, aquele que julga que nada é fatal, irremediável e irrevogável. Por isso crê que pode fazer o que lhe apetece.*

*O que a casa é face à sociedade, é-o em maior escala a nação face ao conjunto das nações. Uma das manifestações simultaneamente mais claras e volumosas do "meninismo" vigente é, como veremos, a decisão que algumas nações tomaram de "fazer o que lhes apetece" na convivência internacional. A isto chamam ingenuamente "nacionalismos". E eu, que detesto a submissão beata à internacionalidade, por outro lado acho grotesco esse "meninismo" transitório das nações menos maduras."

Ortega y Gasset in A Rebelião das Massas (1930)



quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

"altitude de pretérito amontoado"




  O homem não é nunca um primeiro homem: começa logo a existir sobre certa altitude de pretérito amontoado. É este o tesouro único do homem, o seu privilégio e a sua marca. E a menor riqueza desse tesouro consiste no que dele parecer acertado e digno de ser conservado: o importante é a memória dos erros que nos permite não cometer sempre os mesmos. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros, a longa experiência vital decantada gota a gota durante milénios.

[...] E isto é ser um povo de homens: poder continuar no seu ontem sem deixar por isso de viver para o futuro, poder existir no verdadeiro presente, já que o presente é só a presença do passado e do porvir, o lugar onde o pretérito e futuro efetivamente existem."

Ortega y Gasset in  A Rebelião das Massas (1930)

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

...no dia seguinte recomeçava a vida*

 

* Ruben A. in A Torre da Barbela



(ouvir com auscultadores no volume máximo)

domingo, 13 de setembro de 2020

"...um livro para crianças grandes"... *

 

Jennifer Bowman

"As pedras ressoavam a outrora e a poesia era um evaporar-se de encontro às fragrâncias do lusco-fusco. O ar ventilava-se ao longo das frestas menos evidentes e em cada canto repercutiam pensamentos e sensações que à primeira não se definiam."*



Justin Twigg

"O rumor de um açude despertava-lhes pronúncios de aveludamento."*



Max Pipe


"Como sugava poesia por todas as raízes e ouvia o amor ao crepúsculo, deram-me liberdade incondicional."*



Salvador Dali


"Nas coisas que se viam transpirava uma meia loucura de falta de iniciativa. Parecia-lhe que tudo olhava para o não-te-rales. As formas incidiam-se de um fatalismo medonho, como a exibir desfiles de faces sanhudas e torvados sentimentos(...)"*

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* Ruben A. in A Torre da Barbela

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

"Eu não quero ser humano. Quero ser feliz."









pois...mas este selo está no canto inferior direito da capa do livro...e só ampliado se lê em condições... porquê? não é um prémio importante? não é credível?
David Machado é uma surpresa grande. Gosto quando ele diz: "Estou mais apreensivo com quem nunca leu o livro e vai chegar às personagens através do filme".
Era o que quase me acontecia. Desisti de ver o filme (depois de 10 ou 15 minutos) porque o achei muito negro.
Olhei para o livro, desconfiada, pensando se seria boa ideia...
Ainda bem que resolvi lê-lo:


"Almodôvar, ainda não te contei sobre as horas que passava em hipermercados, a empurrar um carrinho, a enchê-lo com champôs, detergentes para todos os tipos de superfície, queijos importados, vinhos, enlatados, camarão congelado, como se tivesse uma casa de família para abastecer, ficava horas a olhar para as embalagens, a ler os rótulos, indeciso na escolha, a seleccionar as melhores peças de carne, o peixe mais fresco, a fruta mais madura, a fazer conversa fiada com os empregados, a sorrir para os outros clientes, e depois, de repente, entrava num corredor qualquer e encostava o carrinho a abarrotar, centenas de euros em compras, e afastava-me, saia do hipermercado de mãos vazias sem chegar a comprar nada. Enfim, o que um gajo se vê obrigado a fazer para se sentir normal."







quinta-feira, 30 de julho de 2020

Jake, a mulher

o problema é meu, eu sei.
algo de estranho se passou, comigo e com esta leitura, em que nem um sublinhado fiz.
porque é que é tão "extraordinário" ler ficção que retrata a vida sombria e miserável de personagens? a realidade não ultrapassa já tanto o romance?
em cinema é provável que possa ser um bom filme, porque tudo o que é relatado, o é de uma forma muito visual; converti cada frase em imagens (a descrição do galope de um incêndio urbano na Austrália foi o que mais retive, assustador de tão vívido).
literáriamente falando não parei em nenhuma.
e porque é que os novos escritores contam histórias aos soluços, para trás e para a frente? já cansa...
enfim, se calhar toda esta conversa tem a ver com o calor e o covid-19.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

não importa como foi a vida, pensa ela, no fim há sempre espanto


"Para desviar o pensamento olha para o espelho na parede, com uma moldura dourada. Aquelas somos mesmo nós? Aqueles chapelinhos, as carteiras de crocodilo e os rostos estranhamente pintados, aqueles gestos afectados e as roupas ridículas? Como é que isto aconteceu? Ainda há pouco éramos como todas as outras que conhecíamos, sabíamos vestir-nos, não usávamos penteados disparatados! Precisamente por isso, pensa Rosalie, é que toda a gente gosta daquela detective fantástica, a Miss Marple - porque ela personifica o oposto da realidade. As mulheres velhas não desvendam homicídios. Não se interessam pelo mundo e já não querem compreender o que se passa. Todas as que ainda lá não chegaram pensam que hão-de ser diferentes. Tal como nós pensávamos."
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é o segundo autor de origem alemã que leio em pouco tempo. é o segundo que não achei piada. será que tenho alguma coisa contra os alemães...?

sábado, 30 de maio de 2020

"devoted to mind-bending projects that would do for death what the Surrealists had done for sex"*


no tempo em que tudo é estranho, como estranhar que um dos livros mais empolgantes dos últimos tempo tenha o preço de 1 euro?
Tom McCarthy faz, no quintal dos agradecimentos, referência a duas pessoas "por partilharem comigo generosamente as suas experiências de (pós-)trauma".
escritor invulgar, cria em 1999 a International Necronautical Society   (INS)*.
em 2005 escreve Remainder  bem traduzido em português como Remanescente: o que fica depois de tudo acontecer uma primeira vez?
"As pessoas nunca param para pensar nestes factos básicos quando observam programas de guerra ou policiais na televisão. As pessoas tomam demasiadas coisas como certas. Cada vez que uma arma de fogo é disparada, toda a história da engenharia entra em acção. E também da política: guerra, assassinato, revolução, terror. As armas não são apenas agentes e ferramentas da História: são a própria História, fazendo girar futuros alternativos nas suas câmaras, fazendo jorrar o presente dos seus canos, pondo de lado as balas vazias do passado."
o que se passa na cabeça de quem passa por trauma e pós-trauma...?
e se estes tiverem muito dinheiro...?
e se esses não tiverem qualquer filtro ou controle...?
O Kafka do tempo do Google...?
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sábado, 11 de abril de 2020

dia 26 e 27* - angst - um médico da angústia

"No futuro - talvez daqui a cinquenta anos, quem sabe quando? - , esse tratamento através da conversa poderá tornar-se banal. Os "médicos da angústia" tornar-se-ão uma especialidade característica. E as faculdades de Medicina, ou talvez os departamentos de Filosofia, prepará-los-ão.
O que deverá conter o currículo do futuro "médico da angústia"? De momento posso ter a certeza de uma cadeira essencial - "relacionamento"! É aí que as coisas se complicam. Assim como os cirurgiões precisam primeiro de aprender anatomia, o futuro "médico da angústia" primeiro precisa de entender o relacionamento entre o que aconselha e o aconselhado. E, caso eu deva contribuir para a ciência de tal aconselhamento, tenho de observar o relacionamento tão objectivamente como o cérebro dos pombos.
Observar um relacionamento não é fácil, quando eu mesmo faço parte dele."

Irvin D. Yalom in Quando Nietzche chorou




*Sugestão de utilização
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domingo, 5 de abril de 2020

Dia 20 e 21* - "apenas o trocamos por outro"

«Eu sempre achei que os crentes  eram pessoas que se sentiam fracas e por isso veneram algo forte.» «Isso é o que eles pensam. O adorador dota de poder o objecto adorado, um poder real, não um poder imaginário, é esse o sentido da prova ontológica, uma das ideias mais ambíguas que os homens alguma vez tiveram. Mas este poder é uma coisa temível. O nosso deus é feito dos nossos desejos e dos nossos apegos. E quando nos desligamos de uma coisa, outra surge de imediato, à maneira de consolação. Nós nunca renunciamos inteiramente a um prazer, apenas o trocamos por outro. Toda a espiritualidade tende a degenerar em magia, e o uso da magia tem implícito uma nemésis automática, mesmo quando o espírito foi purgado dos hábitos mais grosseiros. A magia branca é uma magia negra. E qualquer intromissão menos que perfeita no mundo espiritual pode gerar monstros para os outros. Os demónios usados para o bem podem continuar por aqui e depois provocar estragos. O ultimo feito é abdicar completamente da magia, pôr fim aquilo a que chamas superstição . Mas como é que isso acontece? A bondade significa renunciar ao poder e agir negativamente sobre o mundo. Os bons são inimagináveis.»
O Mar, o Mar



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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

"estou a viver em mim como num comboio a andar"

"Não entrei de livre vontade, não pude escolher, nem conheço o local de destino. Um dia, num passado remoto, acordei no meu compartimento e senti esse rolar. Era excitante, escutei o matraquear das rodas, pus a cabeça fora da janela, senti o vento e exultei com a velocidade com que as coisas passavam por mim. Desejei que o comboio nunca mais interrompesse a viagem. De maneira nenhuma quis que ele ficasse parado para sempre.
Foi em Coimbra, num banco duro de um auditório, que me tornei consciente: não posso sair. Não posso mudar de linha nem de direcção. Não sou eu que determino a velocidade. Não consigo ver a locomotiva nem reconhecer quem a conduz, ou se o maquinista é ou parece ser de confiança. Não sei se ele lê bem os sinais e se se apercebe quando uma agulha é mal mudada. Não posso mudar de compartimento. Vejo pessoas a passar pelo corredor e penso: se calhar, nos seus compartimentos tudo é diferente. Mas não me posso levantar e ir ver, um revisor que eu nunca vi, nem irei ver, fechou e selou a porta do meu compartimento. Abro a janela, debruço-me o mais possível para fora e vejo que todos os outros passageiros fazem o mesmo. O comboio descreve uma curva suave. As ultimas carruagens ainda estão dentro do túnel e as da frente já lá entraram novamente. Será que o comboio descreve constantemente o mesmo circulo, sem que ninguém se aperceba disso, nem mesmo o maquinista? Não faço a mínima ideia do tamanho da composição. Vejo os outros todos a esticarem o pescoço, na esperança de poderem ver e perceber alguma coisa. Saúdo-os, mas a deslocação do ar arrasta as minhas palavras.
A iluminação no compartimento muda, sem que tenha sido eu a determinar essa alteração. Sol e nuvens, crepúsculo e madrugada, chuva, neve, tempestades. A luz do tecto é mortiça, torna-se mais clara, um brilho ofuscante, começa a tremeluzir, apaga-se, regressa, é uma lamparina, um castiçal, um tubo de néon cintilante, tudo ao mesmo tempo. O aquecimento não é fiável. Pode acontecer que comece a aquecer quando faz calor e falhe quando está frio. Tento accionar o interruptor, ouve-se o clic-clac, mas nada muda. Estranho é que também o sobretudo não me aqueça de uma forma contínua. Lá fora, as coisas parecem levar o seu rumo habitual e lógico. Talvez isso aconteça também nos compartimentos dos outros? De qualquer forma, no meu tudo se passa de um modo diferente daquele que eu poderia esperar. Completamente diferente. Estaria o construtor bêbado? Seria um louco? Um charlatão diabólico?"


"Nos compartimentos encontram-se disponíveis horários. Quero saber quais são as paragens. As folhas estão vazias. Nas estações onde paramos as localidades não estão sinalizadas. Lá fora, as pessoas lançam olhares curiosos ao comboio. Os vidros estão sujos pelo frequente mau tempo. Penso: eles deturpam a imagem do interior. De repente, sinto necessidade de pôr ordem nas coisas. A janela está empenada. Grito até ficar rouco. Os outros passageiros batem nas paredes indignados. Por detrás da estação surge um túnel que me corta a respiração.Quando saímos do túnel, pergunto-me se alguma vez parámos de facto.
O que é que se pode fazer durante a viagem? Arrumar o compartimento. Fixar os objectos, para que não se ponham a trepidar. É então que sonho que a pressão do ar deslocado pelo comboio aumenta e rebenta com a janela. Tudo o que eu penosamente consegui arrumar e fixar voa à minha volta. Os sonhos, aliás, são constantes durante a viagem sem fim: sonhos em que não consigo apanhar o comboio e em que me deixo enganar por indicações falsas de horários; de estações que se esfumam num nada, assim que chegamos; de guarda-linhas e chefes de estação que surgem, de repente, com os seus bonés vermelhos, absortos, a fitarem o vazio. Por vezes, acabo por adormecer de puro tédio. Mas é perigoso adormecer, só muito raramente acordo recomposto e satisfeito com as transformações. Quase sempre, aquilo que encontro ao acordar, tanto no interior como no exterior, deixa-me confundido e infeliz.
Outras vezes, assusto-me e penso: a qualquer instante o comboio pode descarrilar. Sim, é verdade, na maior parte das vezes esse pensamento assusta-me. No entanto, há instantes, raros e incandescentes, em que a fantasia me trespassa como um raio de felicidade."


"Acordo, e a paisagem dos outros voa perante o meu olhar. Por vezes, a uma tal velocidade que eu nem tenho tempo de acompanhar os seus caprichos e delirantes disparates; outras vezes, quando insistem em repetir sempre as mesmas coisas, tudo se torna de uma lentidão dolorosa. Sinto-me aliviado por haver um vidro que nos separa. Assim, consigo reconhecer os seus planos e desejos, sem que eles me possam atingir impunemente. Sinto-me contente quando o comboio atinge a sua máxima velocidade e eles desaparecem. O que fazemos com os desejos dos outros, quando eles nos atingem?
Pressiono a testa contra a janela do compartimento e concentro-me com toda a minha energia. Quero, pela primeira vez, sentir e agarrar aquilo que se passa lá fora. Apreender e compreender, com todas as fibras do meu ser, para que não me escape novamente. Mas falho. Tudo se passa demasiado depressa, mesmo quando o comboio pára em pleno campo. As impressões sobrepõem-se e apagam-se constantemente. A memória aquece, tento desesperadamente organizar as sequências das várias imagens, num esforço inútil por chegar à ilusão de algo inteligível. Mas, por mais que a luz da atenção corra atrás das coisas, chego sempre atrasado. Quando chego, já tudo passou. Acabo sempre derrotado. Nunca estou presente. Mesmo quando, durante a noite, o interior do compartimento se espelha no vidro da janela.
Amo os túneis. São para mim um símbolo de esperança: há-de chegar o momento em que a luz iria surgir. Caso não seja noite.
Por vezes, recebo visitas no compartimento. Não sei como isso é possível, com a porta trancada e selada, mas acontece. Na maior parte das vezes, a visita chega a horas impróprias. São pessoas vindas do presente e do passado. Aparecem e desaparecem como muito bem lhes apetece, não têm respeito e incomodam-me. Tenho de falar com elas. É tudo provisório, descomprometido, votado ao esquecimento; o tipo de conversas que se têm nos comboios. Alguns dos visitantes desaparecem sem deixar rasto. Outros deixam rastos pegajosos e fétidos, o arejar de nada ajuda. Nessas alturas, quero arrancar todo o equipamento do compartimento para o trocar por outro novo.
A viagem é longa. Dias há em que a desejo infinita. São dias invulgares, preciosos. Depois há outros em que fico aliviado por saber que irá surgir um derradeiro túnel em que o comboio acabará por parar para sempre."
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O livro...

.... comeu o filme... 



...ao pequeno-almoço.