"...para ser lido da mesma forma como muitas vezes os gatos entram na nossa vida... ou seja, ao acaso..."
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
terça-feira, 22 de agosto de 2023
o lápis encontrador de belezas...
... alguma razão eu acharia para pensar que quem tem esta personalidade, só pode ser gémea.
lagarto, lagarto eu insinuar que tenho alguma qualidade literária e de pensamento semelhante!
mas saber que alguém trata os livros que lê da mesma forma que eu, sabe tão bem.......
porque o lápis é um encontrador de beleza, porque na beleza está tudo: surpresa, poesia, sentimentos bons, sentimentos ruins, sensações etéreas, voos para além de nós.
...em 2022 pensa assim.
terça-feira, 17 de agosto de 2021
talking heads
"Hesitar sempre foi um projecto de vida para alguns. Ser capaz de continuar a hesitar até ao fim, eis o difícil. Por vezes, um homem chega ao meio da vida e desata a correr como se soubesse para onde vai. Outros não o fazem, e a sabedoria é isto: no momento da partida excitante e rápida pára-se para apertar os atacadores. Hesita-se por falta de equipamento para a decisão. Não estou equipado para a prática desportiva da decisão. Eis, pois, que digo simpaticamente: ganhe você, por favor. O que de certa maneira é isto: eu não tenho tempo para ganhar, estou tão ocupado a hesitar que fico aqui, em redor do nada, de modo a ter uma referencia negativa. Quando vir qualquer coisa que me excite devo virar-lhe as costas; quando me estiver a entediar, é aí que eu fico."
Gonçalo M. Tavares in Matteo perdeu o emprego
domingo, 28 de março de 2021
"a escrita não é mais do que pensar com o alfabeto"
sábado, 25 de janeiro de 2020
mover-me apenas em direcção ao que gosto
Para a palavra fazer, gosto da ideia de construção
E o que dela existe nos movimentos normais.
Agrada-me a palavra engenharia e o que ela
Representa: não saias de um sitio sem deixares algo
Atrás de ti. Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outra coisas, dirijo-me
Às pessoas de que gosto, nunca às de que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos).
Não sei pois como viver. O que li e vi
Serve-me apenas para ser mais lúcido, não
Para ser melhor pessoa. Adquiri esta regra (ou nasci com ela):
- e é talvez uma moral -
mover-me apenas em direcção ao que gosto.
Se o prédio alto, escuro, feio
me impede de ver o sol, não fico a insultá-lo, não
moverei um dedo para o deitar a baixo:
contorno sim os edifícios necessários
até chegar ao espaço onde possa receber aquilo que
quero. Se chegar lá de noite, montarei acampamento.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
2....2....2.....
9,8,7,6,5,4,3,2
e, de súbito, algo pára, encrava, repete, enrola-se sobre si mesmo, morde a cauda, não sabe como avançar, está cego e pára, não tem pernas e por isso não avança, encrava, enrola-se, morde a cauda, repete-se, pára, encrava-se; como nas antigas cassetes, a sensação é de que a fita ficou presa no n.º 2.
(...)
Encravou no dois.
(...)
O 1 não veio, o zero não veio.
O homem ainda não viu o fim do ano e no entanto já passou muito tempo, tempo demais, tempo suficiente.
(...)
Através do vidro da janela o homem vê que lá fora o novo ano está em marcha e, por isso, quando roda a cabeça e com os olhos vasculha os vários compartimentos da sua casa, assusta-se.
(...)
Na contagem decrescente ele está no dois. Ou seja, está a dois segundos de uma grande alegria.
O que o angustia é pensar que pode ficar assim muito tempo, muitos anos mesmo.
Toda a sua vida até.
Gonçalo M. Tavares in Visão de 01-01-2009
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Gonçalo M. Tavares
Agora, sinto que chegámos a uma clareira e que é preciso um novo leitor. Aqui não se pode sair da frase que se está a ler. E isso é absolutamente novo.
O ponto é esse. As palavras são aquelas e não podem ser outras.
Muitas pessoas podem sentir dificuldade em ler porque há uma necessidade de referência.
Tambem dizem que os livros são tristes, mas o que é importante é o prazer da leitura. Não há nada melhor do que ler um livro. As obras de arte são como os tigres. Não se devoram entre elas. Encontrar alguém com talento é uma felicidade, encontrar um livro bom é uma festa, uma alegria.
A mim irrita-me o desperdicio de tempo.Às vezes, apetece-me bater em algumas pessoas que tiveram a possibilidade de ler e não leram.
O tempo está ligado ao dinheiro. Quando me deram o Prémio(...), perguntaram-me o que ia fazer com o dinheiro. Eu respondi que ia comprar tempo.
Devia ter dito que ia comprar um bolo económico e uma carcaça. Ninguém pergunta a um banqueiro o que é que ele vai fazer ao dinheiro, mas perguntam-no a um escritor como se nós fôssemos mendigos. Parece uma tia minha que, quando dava uma esmola, dizia: «Agora não gaste tudo em vinho».
Há uma desvalorização da palavra. E sobretudo da palavra oral.
É engraçado isso de escrever num instante. Vamos imaginar que se escreve um texto em 20 minutos. A questão é que não são apenas aqueles 20 minutos, a questão é: quem é que paga os 40 anos que a pessoa esteve a ler?
O que me parece é que é fácil fazer coisas aos 38 anos. O dificil é continuar, continuar, continuar... Porque está tudo lá fora. Há raparigas bonitas a passar e nós sentamo-nos a escrever.
Às vezes sento-me contrariado, não me apetece.
A parte mais dificil é mesmo sentarmo-nos.
E resistir às tentações.
Revista Visão, 23 de Outubro de 2008
