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terça-feira, 22 de agosto de 2023

o lápis encontrador de belezas...

 










... alguma razão eu acharia para pensar que quem tem esta personalidade, só pode ser gémea.

lagarto, lagarto eu insinuar que tenho alguma qualidade literária e de pensamento semelhante!

mas saber que alguém trata os livros que lê da mesma forma que eu, sabe tão bem.......

porque o lápis é um encontrador de beleza, porque na beleza está tudo: surpresa, poesia, sentimentos bons, sentimentos ruins, sensações etéreas, voos para além de nós.

...em 2022 pensa assim.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

talking heads

"Hesitar sempre foi um projecto de vida para alguns. Ser capaz de continuar a hesitar até ao fim, eis o difícil. Por vezes, um homem chega ao meio da vida e desata a correr como se soubesse para onde vai. Outros não o fazem, e a sabedoria é isto: no momento da partida excitante e rápida pára-se para apertar os atacadores. Hesita-se por falta de equipamento para a decisão. Não estou equipado para a prática desportiva da decisão. Eis, pois, que digo simpaticamente: ganhe você, por favor. O que de certa maneira é isto: eu não tenho tempo para ganhar, estou tão ocupado a hesitar que fico aqui, em redor do nada, de modo a ter uma referencia negativa. Quando vir qualquer coisa que me excite devo virar-lhe as costas; quando me estiver a entediar, é aí que eu fico."

Gonçalo M. Tavares in Matteo perdeu o emprego



domingo, 28 de março de 2021

"a escrita não é mais do que pensar com o alfabeto"

vem este post a propósito do que ali se escreve, para meu deleite, e deste magazine, que na minha opinião peca por ter uma comentadora que se acha com grandes dotes de critica literária...


é do próximo livro a ler:

"Aprender a ler, escrever e contar e também isto: aprender a não cheirar. O lixo sobe, vão sair dali magníficos que impedirão que o mundo vá abaixo, mas tal só acontecerá porque os meninos suportaram o cheiro do que enoja de uma forma estóica: aprendi matemática apesar de cheirar mal pelo mundo inteiro; concentrei-me na exatidão, na lógica, nas vírgulas que arredondam ligeiramente os números. Estar atento às casa decimais apesar de estar rodeado do que é podre. Eis o homem e o seu século, mas isto talvez seja excessivo: nada se define com uma única frase (mas é óbvio isto: quanto mais pequena uma coisa, mais palavras necessita para a descrever. O mundo é uma brincadeira para o vocabulário de uma criança, já uma determinada folha de árvore ou um certo micróbio - eis coisas que exigem o longo discurso do especialista)."

Gonçalo M. Tavares in Matteo perdeu o emprego

sábado, 25 de janeiro de 2020

mover-me apenas em direcção ao que gosto

Sei isto: a minha energia está canalizada
Para a palavra fazer, gosto da ideia de construção
E o que dela existe nos movimentos normais.
Agrada-me a palavra engenharia e o que ela
Representa: não saias de um sitio sem deixares algo
Atrás de ti. Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outra coisas, dirijo-me
Às pessoas de que gosto, nunca às de que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos).
Não sei pois como viver. O que li e vi
Serve-me apenas para ser mais lúcido, não
Para ser melhor pessoa. Adquiri esta regra (ou nasci com ela):
- e é talvez uma moral -
mover-me apenas em direcção ao que gosto.
Se o prédio alto, escuro, feio
me impede de ver o sol, não fico a insultá-lo, não
moverei um dedo para o deitar a baixo:
contorno sim os edifícios necessários
até chegar ao espaço onde possa receber aquilo que
quero. Se chegar lá de noite, montarei acampamento.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

2....2....2.....

(...) O homem aguarda até que por fim começa a clássica contagem decrescente. O fim do ano aproxima-se:
9,8,7,6,5,4,3,2
e, de súbito, algo pára, encrava, repete, enrola-se sobre si mesmo, morde a cauda, não sabe como avançar, está cego e pára, não tem pernas e por isso não avança, encrava, enrola-se, morde a cauda, repete-se, pára, encrava-se; como nas antigas cassetes, a sensação é de que a fita ficou presa no n.º 2.
(...)
Encravou no dois.
(...)
O 1 não veio, o zero não veio.
O homem ainda não viu o fim do ano e no entanto já passou muito tempo, tempo demais, tempo suficiente.
(...)
Através do vidro da janela o homem vê que lá fora o novo ano está em marcha e, por isso, quando roda a cabeça e com os olhos vasculha os vários compartimentos da sua casa, assusta-se.
(...)
Na contagem decrescente ele está no dois. Ou seja, está a dois segundos de uma grande alegria.
O que o angustia é pensar que pode ficar assim muito tempo, muitos anos mesmo.
Toda a sua vida até.

Gonçalo M. Tavares in Visão de 01-01-2009


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

António Lobo Antunes
Gonçalo M. Tavares




Agora, sinto que chegámos a uma clareira e que é preciso um novo leitor. Aqui não se pode sair da frase que se está a ler. E isso é absolutamente novo.



O ponto é esse. As palavras são aquelas e não podem ser outras.



Muitas pessoas podem sentir dificuldade em ler porque há uma necessidade de referência.



Tambem dizem que os livros são tristes, mas o que é importante é o prazer da leitura. Não há nada melhor do que ler um livro. As obras de arte são como os tigres. Não se devoram entre elas. Encontrar alguém com talento é uma felicidade, encontrar um livro bom é uma festa, uma alegria.



A mim irrita-me o desperdicio de tempo.Às vezes, apetece-me bater em algumas pessoas que tiveram a possibilidade de ler e não leram.



O tempo está ligado ao dinheiro. Quando me deram o Prémio(...), perguntaram-me o que ia fazer com o dinheiro. Eu respondi que ia comprar tempo.



Devia ter dito que ia comprar um bolo económico e uma carcaça. Ninguém pergunta a um banqueiro o que é que ele vai fazer ao dinheiro, mas perguntam-no a um escritor como se nós fôssemos mendigos. Parece uma tia minha que, quando dava uma esmola, dizia: «Agora não gaste tudo em vinho».



Há uma desvalorização da palavra. E sobretudo da palavra oral.



É engraçado isso de escrever num instante. Vamos imaginar que se escreve um texto em 20 minutos. A questão é que não são apenas aqueles 20 minutos, a questão é: quem é que paga os 40 anos que a pessoa esteve a ler?



O que me parece é que é fácil fazer coisas aos 38 anos. O dificil é continuar, continuar, continuar... Porque está tudo lá fora. Há raparigas bonitas a passar e nós sentamo-nos a escrever.



Às vezes sento-me contrariado, não me apetece.



A parte mais dificil é mesmo sentarmo-nos.



E resistir às tentações.



Revista Visão, 23 de Outubro de 2008


sábado, 3 de maio de 2008

não tenho tempo para isso


Eu não quero mudar o mundo.
Não tenho tempo para isso.
Quem quer mudar o lugar do mundo actua como quem
muda o lugar de um móvel:
empurra primeiro para um lado,
foi força demais,
empurra então para o outro lado,
agora com força de menos,
depois mais um pequeno toque para lá
e um ainda mais pequeno toque para lá,
e agora sim:
o móvel está no lugar.
Depois abrimos o móvel e vemos que os copos que estavam lá dentro se encontram todos partidos.
Estão a ver?
Os copos todos partidos.

Que aborrecimento.
Não nos lembrámos da fragilidade do vidro.


Gonçalo M. Tavares in "O homem ou é tonto ou é mulher"


segunda-feira, 17 de setembro de 2007

the man who wasn't there (tambem...)

"A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substancias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto, sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade."
in pág. 40