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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

... subir ao Povo... sou um bom segundo...

 























... ou porque é que eu acho que estas duas coisas estão ligadas...
primeiro porque são duas personagens/pessoas a que nunca dei grande importância.
Malato surpreendeu-me muito. o crescimento dele até agora é gigante! a profundidade do pensamento foi um choque. apetece-me continuar a conversar, sobre a vida, com ele.
Raposo já tinha tido um primeiro vislumbre no Despolariza e foi daí que me fez comprar o livro.
é uma história arrebatadora, do principio ao fim das suas 600 e tal páginas. sei que quem quiser faz dele um filme, ou talvez mais uma série, para poder ir aos pormenores. o ritmo é alucinante, é verosímil, entra-se dentro e só apetece sair quando acaba. chorei no fim, pela primeira vez na leitura de um livro.
para se perceber porque estão estas duas pessoas ligadas tem que se ouvir o podcast e ler o livro.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Luv u

 "Deixou-me com o Amo-te escrito em letra normal no ecrã do telemóvel, sem corações, trevos da sorte, ursinhos com os olhos em formato do coração. Amo-te. Escorraçando os simulacros do amor, deixando que a palavra se impusesse poderosa, uma fisga que me arrancava do desconfortável presente para me arremessar esperançosa num futuro feliz. Quantas vezes me tinham dito, Amo-te? Poucas, dolorosamente poucas. Os rapazes com quem andei antes do Jorge não tinham idade nem sentimento para tal, o Jorge resguardava-se no protegido Luv u, e os outros Jorges do Tinder não serviam para essas coisas. Mas o Duarte dissera Amo-te, a palavra das fotonovelas da mamã, das sopeiras e dos marujos, a palavra que raramente se dizia por ainda ser cedo para se dizer ou já ser tarde, a palavra que soava mal por o amor não ser português ao contrário da saudade, o Duarte escrevera Amo-te e a palavra segurara-nos os corpos com um tracinho, Amo-te, nada havia mais poderoso do que a doce prisão do amor que ao nos atar a outro, outro nos faz, mesmo que seja a fingir. Não sabendo o que responder, e lembrada da escusada sinceridade do Jorge, escrevi, Eu também. O Duarte respondeu-me prontamente, O teu amor está desfasado do meu vinte e seis minutos, não tem mal, acabaremos por acertar-nos."

Dulce Maria Cardoso in Eliete - a vida normal



sexta-feira, 10 de setembro de 2021

fuga

Cópia romana em mármore (torso e coxas) com a cabeça, braços, pernas e apoio de roupagem restauradas no Louvre, por Praxíteles.

 

Fevereiro
9

MÁRMORE QUE RESPIRA

Afrodite foi a primeira mulher nua na história da escultura grega.
Praxíteles esculpiu-a com a túnica caída aos seus pés, e a cidade de Cós exigiu que ele a vestisse. Mas outra cidade, Cnido, deu-lhe as boas-vindas e ofereceu-lhe um templo; e em Cnido viveu a mais mulher das deusas, a mais deusa das mulheres.
Embora estivesse entre paredes e muito bem vigiada, os guardas não conseguiam evitar a invasão dos que estavam loucos por ela.
Num dia como o de hoje, farta de tanto assédio, Afrodite fugiu.

Eduardo Galeano in Os Filhos dos Dias

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Palomar na sociedade

Acerca do morder a língua

Numa época e num país no qual todos se pelam por proclamar opiniões ou juízos, o senhor Palomar ganhou o hábito de morder a língua três vezes antes de fazer qualquer afirmação. Se, à terceira dentada na língua, ainda está convencido daquilo que estava para dizer, di-lo; se não, fica calado. Com efeito, passa semanas e meses inteiros em silêncio.

[...]

Mais controverso é o juízo que faz sobre o não ter manifestado o seu pensamento. Em tempo de silêncio geral, o conformar-se com o calar da maioria é certamente uma culpa.

[...]

De facto, o silêncio também pode ser considerado um discurso, enquanto recusa do uso que outros fazem da palavra; mas o sentido desse silêncio-discurso está nas suas interrupções, ou seja, naquilo que de vez em quando se diz e que dá sentido àquilo que se cala.

Ou antes: um silêncio pode servir para excluir certas palavras ou então para as manter de reserva, para que possam ser usadas em melhor ocasião.

Italo Calvino in Palomar, 1985


domingo, 28 de março de 2021

"a escrita não é mais do que pensar com o alfabeto"

vem este post a propósito do que ali se escreve, para meu deleite, e deste magazine, que na minha opinião peca por ter uma comentadora que se acha com grandes dotes de critica literária...


é do próximo livro a ler:

"Aprender a ler, escrever e contar e também isto: aprender a não cheirar. O lixo sobe, vão sair dali magníficos que impedirão que o mundo vá abaixo, mas tal só acontecerá porque os meninos suportaram o cheiro do que enoja de uma forma estóica: aprendi matemática apesar de cheirar mal pelo mundo inteiro; concentrei-me na exatidão, na lógica, nas vírgulas que arredondam ligeiramente os números. Estar atento às casa decimais apesar de estar rodeado do que é podre. Eis o homem e o seu século, mas isto talvez seja excessivo: nada se define com uma única frase (mas é óbvio isto: quanto mais pequena uma coisa, mais palavras necessita para a descrever. O mundo é uma brincadeira para o vocabulário de uma criança, já uma determinada folha de árvore ou um certo micróbio - eis coisas que exigem o longo discurso do especialista)."

Gonçalo M. Tavares in Matteo perdeu o emprego

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

"Eu não quero ser humano. Quero ser feliz."









pois...mas este selo está no canto inferior direito da capa do livro...e só ampliado se lê em condições... porquê? não é um prémio importante? não é credível?
David Machado é uma surpresa grande. Gosto quando ele diz: "Estou mais apreensivo com quem nunca leu o livro e vai chegar às personagens através do filme".
Era o que quase me acontecia. Desisti de ver o filme (depois de 10 ou 15 minutos) porque o achei muito negro.
Olhei para o livro, desconfiada, pensando se seria boa ideia...
Ainda bem que resolvi lê-lo:


"Almodôvar, ainda não te contei sobre as horas que passava em hipermercados, a empurrar um carrinho, a enchê-lo com champôs, detergentes para todos os tipos de superfície, queijos importados, vinhos, enlatados, camarão congelado, como se tivesse uma casa de família para abastecer, ficava horas a olhar para as embalagens, a ler os rótulos, indeciso na escolha, a seleccionar as melhores peças de carne, o peixe mais fresco, a fruta mais madura, a fazer conversa fiada com os empregados, a sorrir para os outros clientes, e depois, de repente, entrava num corredor qualquer e encostava o carrinho a abarrotar, centenas de euros em compras, e afastava-me, saia do hipermercado de mãos vazias sem chegar a comprar nada. Enfim, o que um gajo se vê obrigado a fazer para se sentir normal."







quinta-feira, 30 de julho de 2020

Jake, a mulher

o problema é meu, eu sei.
algo de estranho se passou, comigo e com esta leitura, em que nem um sublinhado fiz.
porque é que é tão "extraordinário" ler ficção que retrata a vida sombria e miserável de personagens? a realidade não ultrapassa já tanto o romance?
em cinema é provável que possa ser um bom filme, porque tudo o que é relatado, o é de uma forma muito visual; converti cada frase em imagens (a descrição do galope de um incêndio urbano na Austrália foi o que mais retive, assustador de tão vívido).
literáriamente falando não parei em nenhuma.
e porque é que os novos escritores contam histórias aos soluços, para trás e para a frente? já cansa...
enfim, se calhar toda esta conversa tem a ver com o calor e o covid-19.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

não importa como foi a vida, pensa ela, no fim há sempre espanto


"Para desviar o pensamento olha para o espelho na parede, com uma moldura dourada. Aquelas somos mesmo nós? Aqueles chapelinhos, as carteiras de crocodilo e os rostos estranhamente pintados, aqueles gestos afectados e as roupas ridículas? Como é que isto aconteceu? Ainda há pouco éramos como todas as outras que conhecíamos, sabíamos vestir-nos, não usávamos penteados disparatados! Precisamente por isso, pensa Rosalie, é que toda a gente gosta daquela detective fantástica, a Miss Marple - porque ela personifica o oposto da realidade. As mulheres velhas não desvendam homicídios. Não se interessam pelo mundo e já não querem compreender o que se passa. Todas as que ainda lá não chegaram pensam que hão-de ser diferentes. Tal como nós pensávamos."
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é o segundo autor de origem alemã que leio em pouco tempo. é o segundo que não achei piada. será que tenho alguma coisa contra os alemães...?

domingo, 12 de abril de 2020

Dia 28* - um embuste perfeito...

...ou como os humanos adoram fábulas

"A expressão mais alegre da natureza: nos passarinhos nem sequer o medo é verde e abjecto como nos homens, e não por se esconder debaixo das penas, pois aparece de forma evidente, sem alterar de modo nenhum o seu elegante organismo. Deve-se, pois, crer que os seus cerebrozinhos não o conheçam. O alarme advém da vista ou do ouvido e, com a pressa, passa directamente para as asas. Mas que bela coisa um cerebrozinho desprovido de medo num organismo em fuga! Um dos bichinhos sobressaltou-se? Fogem todos, mas de um modo que parece que dizem: eis uma boa ocasião para ter medo. Não conhecem hesitações. Custa tão pouco fugir quando se tem asas. E o seu voo vai seguro. Evitam os obstáculos roçando neles e atravessam o mais denso emaranhado de ramos de árvore sem se deixarem prender ou ferir. Pensam apenas quando já estão longe e procuram então compreender o motivo da fuga, estudando lugares e coisas. Inclinam, graciosos, a cabecinha para a direita e para a esquerda, esperando pacientemente poder regressar ao sítio de onde fugiram."




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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

os lados das coisas

a qualidade desta série é..... fantástica! Tecnicamente inovadora, tem um editor de imagem fenomenal. As cenas dos episódios anteriores são apresentadas no capitulo seguinte com as câmaras de filmar em posições completamente diferentes das cenas passadas nos episódios anteriores. É outro filme.
O produtor de design entra no clima de alucinação permanente, refletindo nas cores usadas (o que eu chamo cores benetton) todo o ambiente de loucura (com e sem drogas).

o actor  que fez as minhas delicias na série Sherlock Holmes reconhece,na entrega dos prémios BAFTA,que precisou muito da estabilidade da família quando saía das filmagens para manter a sanidade mental.
Sapos se engolem em nome da arte (porque a história é terrível).


os livros,que devem ser fabulosos, estão esgotados.

sábado, 25 de janeiro de 2020

prémio melhor livro alemão do ano (2011)


"Na Galerie am Stern, graças ao pagamento em caviar, Irina adquiriu diversas peças da cobiçada cerâmica de Waldenburg, cozida com resíduos de cinzas volantes acastanhadas, que depois voltou a usar como suborno para adquirir janelas de sótão; transportou no reboque do carro parte dessas janelas, de que não precisava, até Finsterwalde, onde as trocou por uma maior (com um metro), a qual o pescador Eberling de GroBzicker, na ilha de Rugen, lhe tirou imediatamente das mãos, dando-lhe em troca uma caixa de enguias que ele - ilegalmente, como é natural - preparara num fumeiro escondido atrás da garagem.
Nadjeshda Iwanowna comeu duas enguias. Chegara havia pouco à RDA e queria provar que não era exigente («Comam o pão que é bom, essas serpentes são boas para mim»). Irina guardou três para Sascha, que não as quis comer «por respeito pela vontade de viver desses animais»,  como ele disse (até então sempre as comera). Três enguias fumadas foram para o açougueiro, que fornecia a Irina os famosos «embrulhos às cegas», cujo conteúdo (bifes do lombo, lombo de porco fumado ou fiambre) não deveria ser revelado aos outros clientes. O mecânico de automóveis recebeu três. O livreiro, uma. E, finalmente, duas foram para uma ex-colega, sendo do jardim do pai dela que provinham aqueles alperces secos, bem como os marmelos e as pêras de inverno e casca grossa que Irina descascava, cortava em pequenos cubos e misturava com os alperces já demolhados, juntamente com figos cortados ao meio da loja russa, passas (em vez de uvas), castanhas (que ela própria colhera nas colinas de Caputh) e laranjas cubanas (que tinha simplesmente comprado numa loja), um tanto fibrosas e, por isso, cortadas em pedacinhos. Punha manteiga abundante, acrescentava conhaque arménio antes de rechear com eles o ganso de Natal, que preparava segundo uma antiga receita com trezentos anos e que se chamava «ganso à mosteiro borgonhês», porque a receita provinha de monges da Borgonha."
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só percebo o prémio por ser alemão...

aproveitando as saudades do sol


Enriquecimento com causa
Tem vergonha de falar sobre isso. Ficou multimilionário à custa de uma canção sobre a pobreza.

Filho de zapper sabe zappar
Ao fim de quase doze meses, começo a perceber que o meu filho tem algumas parecenças comigo. O petiz também gosta de fazer zapping entre os brinquedos.

Depois admiram-se de o puto dar em intelectual
Sempre que o meu filho fica agitado dão-lhe um livro para as mãos.

Juvenal tem uma surpresa no multibanco
O saldo da sua vida não lhe permite novos relacionamentos.

O fim do problema
Passava a vida a limpar a imagem. Até que, um dia, sem querer, apagou-a.

A vergonha
Durante a fisioterapia tinha vergonha de dizer aos atletas que se tinha lesionado - ainda por cima com gravidade - a escrever um poema.

Márcio e a psicologia
Qual a diferença entre o meu psicólogo e aquelas pessoas que passam a vida a vasculhar os caixotes do lixo da cidade?

Do peso dos livros
Se eu dirigisse uma empresa de mudanças não aceitava pedidos de cidadãos com pretensões literárias.

Peço-me desculpa por aquilo de ontem
Em todos os sítios onde trabalhava incompatibilizava-se com alguém. Resolveu, por isso, trabalhar em casa. Obrigado a fazer (todos os dias de manhã) as pazes consigo.

Sophia numa empresa qualquer
- Queres que te traga alguma coisa da rua?
- Se ainda houver, poesia. E um pacote de batata frita.

Da desfragmentação da vida de Márcio
Depois de ter deixado os discos do computador a desfragmentar de um dia para o outro, tentou fazer o mesmo com a sua vida pessoal. Sem resultados, até ao momento.

Motivos para festejar
Sorria, você não está a ser filmado.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

escritores urgentes, escritores ruminantes e os poetas

os poetas estão para a escrita assim como os arquitectos estão para as casas.
É assim que os vejo.
A poesia entrou-me pelos ouvidos como a pintura me entrou pelos olhos.
A Rádio acompanhou-me desde que nasci (a "aparelhagem" só entrou na minha adolescência) e foi assim que ouvi chegar a poesia: Rádio Clube Português...? Rubricas de poesia de programas de sábado do Júlio Isidro...? Já lá não consigo chegar....
A televisão trouxe João Villaret, David Mourão Ferreira, Vitorino Nemésio, Mário Viegas, Pedro Lamares.
E de cada audição e visão, as palavras ficavam a pairar cá dentro... na alma.... no coração... hipnotizada é o conceito... coisa só minha, porque ninguém percebia porque eu percebia a poesia....
O Liceu trouxe-me a poesia escrita... procurar poesia tornou-se um conforto... portuguesa, claro, que não domino as línguas outras para perceber a poesia e a traduzida tem a alma do tradutor nas entrelinhas... coisa só minha, porque ninguém percebia porque eu percebia a poesia....
Deixei a poesia para os poetas durante 10 anos (2009-2019), vamos lá saber porquê... (claro que sei)
Neste final de ano de 2019, voltei aos meus poetas, porque não há volta a dar, continuo a ficar hipnotizada... coisa só minha, porque ninguém percebe porque eu percebo a poesia....


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Eu só quero que me prendas como mola no sizal...

... ou como do canto se faz luz....





O inverno no joelho quando dobra
Estremece e anuncia esta chuva que me acorda
Novas manhãs, rugas e cãs
Eu por engomar
O tempo dá
O tempo tira
O tempo cobra
O tempo dá
O tempo tira
O tempo cobra
A cadeira quase me devora
O teu cheiro no armário ainda não se foi embora
Onan, bom vivã, a paixão de tão vã
Só veio assombrar
Novas manhãs, trincámos maçãs
E a serpente a olhar
O tempo dá
O tempo tira
O tempo cobra
O tempo dá
O tempo tira
O tempo cobra
E a falta que me fazes no meio deste vendaval
Eu só quero que me prendas como mola no sizal
E a falta que me fazes no meio deste vendaval
Eu só quero que me prendas como mola no sizal.
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João Tordo tem 12 livros editados em 14 anos. Para mim, este ritmo faz dele um escritor urgente. Não os li todos (as leituras são como as viagens... Quantas vezes regressamos ao mesmo país, por mais que tenhamos sido felizes nele...?). Conheci-o em 2008 com o Hotel Memória, fixei a âncora com As Três Vidas. Hoje terminei A mulher que correu atrás do vento . Espanta-me sempre a labiríntica forma de contar as histórias ( a vida também não é em linha recta, pois não...?). Como se todas as histórias tivessem uma pitada de livro policial de Agatha Christie.

se eu continuar a escrever, vou continuar a dizer a verdade[...]. Talvez escrever não seja aquilo que eu pensava que era. Eu não quero dizer a verdade. Pelo contrário: quero escondê-la, ocultá-la dentro de histórias, mascarar a dor com as minhas personagens.