"...para ser lido da mesma forma como muitas vezes os gatos entram na nossa vida... ou seja, ao acaso..."
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
... subir ao Povo... sou um bom segundo...
quinta-feira, 7 de abril de 2022
Luv u
"Deixou-me com o Amo-te escrito em letra normal no ecrã do telemóvel, sem corações, trevos da sorte, ursinhos com os olhos em formato do coração. Amo-te. Escorraçando os simulacros do amor, deixando que a palavra se impusesse poderosa, uma fisga que me arrancava do desconfortável presente para me arremessar esperançosa num futuro feliz. Quantas vezes me tinham dito, Amo-te? Poucas, dolorosamente poucas. Os rapazes com quem andei antes do Jorge não tinham idade nem sentimento para tal, o Jorge resguardava-se no protegido Luv u, e os outros Jorges do Tinder não serviam para essas coisas. Mas o Duarte dissera Amo-te, a palavra das fotonovelas da mamã, das sopeiras e dos marujos, a palavra que raramente se dizia por ainda ser cedo para se dizer ou já ser tarde, a palavra que soava mal por o amor não ser português ao contrário da saudade, o Duarte escrevera Amo-te e a palavra segurara-nos os corpos com um tracinho, Amo-te, nada havia mais poderoso do que a doce prisão do amor que ao nos atar a outro, outro nos faz, mesmo que seja a fingir. Não sabendo o que responder, e lembrada da escusada sinceridade do Jorge, escrevi, Eu também. O Duarte respondeu-me prontamente, O teu amor está desfasado do meu vinte e seis minutos, não tem mal, acabaremos por acertar-nos."
Dulce Maria Cardoso in Eliete - a vida normal
sexta-feira, 10 de setembro de 2021
fuga
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| Cópia romana em mármore (torso e coxas) com a cabeça, braços, pernas e apoio de roupagem restauradas no Louvre, por Praxíteles. |
quarta-feira, 14 de abril de 2021
Palomar na sociedade
Acerca do morder a língua
Numa época e num país no qual todos se pelam por proclamar opiniões ou juízos, o senhor Palomar ganhou o hábito de morder a língua três vezes antes de fazer qualquer afirmação. Se, à terceira dentada na língua, ainda está convencido daquilo que estava para dizer, di-lo; se não, fica calado. Com efeito, passa semanas e meses inteiros em silêncio.
[...]
Mais controverso é o juízo que faz sobre o não ter manifestado o seu pensamento. Em tempo de silêncio geral, o conformar-se com o calar da maioria é certamente uma culpa.
[...]
De facto, o silêncio também pode ser considerado um discurso, enquanto recusa do uso que outros fazem da palavra; mas o sentido desse silêncio-discurso está nas suas interrupções, ou seja, naquilo que de vez em quando se diz e que dá sentido àquilo que se cala.
Ou antes: um silêncio pode servir para excluir certas palavras ou então para as manter de reserva, para que possam ser usadas em melhor ocasião.
Italo Calvino in Palomar, 1985
domingo, 28 de março de 2021
"a escrita não é mais do que pensar com o alfabeto"
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
"Eu não quero ser humano. Quero ser feliz."
pois...mas este selo está no canto inferior direito da capa do livro...e só ampliado se lê em condições... porquê? não é um prémio importante? não é credível?
David Machado é uma surpresa grande. Gosto quando ele diz: "Estou mais apreensivo com quem nunca leu o livro e vai chegar às personagens através do filme".
Era o que quase me acontecia. Desisti de ver o filme (depois de 10 ou 15 minutos) porque o achei muito negro.
Olhei para o livro, desconfiada, pensando se seria boa ideia...
Ainda bem que resolvi lê-lo:
"Almodôvar, ainda não te contei sobre as horas que passava em hipermercados, a empurrar um carrinho, a enchê-lo com champôs, detergentes para todos os tipos de superfície, queijos importados, vinhos, enlatados, camarão congelado, como se tivesse uma casa de família para abastecer, ficava horas a olhar para as embalagens, a ler os rótulos, indeciso na escolha, a seleccionar as melhores peças de carne, o peixe mais fresco, a fruta mais madura, a fazer conversa fiada com os empregados, a sorrir para os outros clientes, e depois, de repente, entrava num corredor qualquer e encostava o carrinho a abarrotar, centenas de euros em compras, e afastava-me, saia do hipermercado de mãos vazias sem chegar a comprar nada. Enfim, o que um gajo se vê obrigado a fazer para se sentir normal."
quinta-feira, 30 de julho de 2020
Jake, a mulher
algo de estranho se passou, comigo e com esta leitura, em que nem um sublinhado fiz.
porque é que é tão "extraordinário" ler ficção que retrata a vida sombria e miserável de personagens? a realidade não ultrapassa já tanto o romance?
em cinema é provável que possa ser um bom filme, porque tudo o que é relatado, o é de uma forma muito visual; converti cada frase em imagens (a descrição do galope de um incêndio urbano na Austrália foi o que mais retive, assustador de tão vívido).
literáriamente falando não parei em nenhuma.
e porque é que os novos escritores contam histórias aos soluços, para trás e para a frente? já cansa...
enfim, se calhar toda esta conversa tem a ver com o calor e o covid-19.
quarta-feira, 1 de julho de 2020
não importa como foi a vida, pensa ela, no fim há sempre espanto
quinta-feira, 18 de junho de 2020
domingo, 12 de abril de 2020
Dia 28* - um embuste perfeito...
"A expressão mais alegre da natureza: nos passarinhos nem sequer o medo é verde e abjecto como nos homens, e não por se esconder debaixo das penas, pois aparece de forma evidente, sem alterar de modo nenhum o seu elegante organismo. Deve-se, pois, crer que os seus cerebrozinhos não o conheçam. O alarme advém da vista ou do ouvido e, com a pressa, passa directamente para as asas. Mas que bela coisa um cerebrozinho desprovido de medo num organismo em fuga! Um dos bichinhos sobressaltou-se? Fogem todos, mas de um modo que parece que dizem: eis uma boa ocasião para ter medo. Não conhecem hesitações. Custa tão pouco fugir quando se tem asas. E o seu voo vai seguro. Evitam os obstáculos roçando neles e atravessam o mais denso emaranhado de ramos de árvore sem se deixarem prender ou ferir. Pensam apenas quando já estão longe e procuram então compreender o motivo da fuga, estudando lugares e coisas. Inclinam, graciosos, a cabecinha para a direita e para a esquerda, esperando pacientemente poder regressar ao sítio de onde fugiram."
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
os lados das coisas
O produtor de design entra no clima de alucinação permanente, refletindo nas cores usadas (o que eu chamo cores benetton) todo o ambiente de loucura (com e sem drogas).
o actor que fez as minhas delicias na série Sherlock Holmes reconhece,na entrega dos prémios BAFTA,que precisou muito da estabilidade da família quando saía das filmagens para manter a sanidade mental.
Sapos se engolem em nome da arte (porque a história é terrível).
os livros,que devem ser fabulosos, estão esgotados.
sábado, 25 de janeiro de 2020
prémio melhor livro alemão do ano (2011)
só percebo o prémio por ser alemão...
aproveitando as saudades do sol
quarta-feira, 30 de outubro de 2019
escritores urgentes, escritores ruminantes e os poetas
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
Eu só quero que me prendas como mola no sizal...
Estremece e anuncia esta chuva que me acorda
Eu por engomar
O tempo tira
O tempo cobra
O tempo tira
O tempo cobra
O teu cheiro no armário ainda não se foi embora
Só veio assombrar
E a serpente a olhar
O tempo tira
O tempo cobra
O tempo tira
O tempo cobra
Eu só quero que me prendas como mola no sizal
Eu só quero que me prendas como mola no sizal.
João Tordo tem 12 livros editados em 14 anos. Para mim, este ritmo faz dele um escritor urgente. Não os li todos (as leituras são como as viagens... Quantas vezes regressamos ao mesmo país, por mais que tenhamos sido felizes nele...?). Conheci-o em 2008 com o Hotel Memória, fixei a âncora com As Três Vidas. Hoje terminei A mulher que correu atrás do vento . Espanta-me sempre a labiríntica forma de contar as histórias ( a vida também não é em linha recta, pois não...?). Como se todas as histórias tivessem uma pitada de livro policial de Agatha Christie.
se eu continuar a escrever, vou continuar a dizer a verdade[...]. Talvez escrever não seja aquilo que eu pensava que era. Eu não quero dizer a verdade. Pelo contrário: quero escondê-la, ocultá-la dentro de histórias, mascarar a dor com as minhas personagens.










