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quinta-feira, 7 de abril de 2022

Luv u

 "Deixou-me com o Amo-te escrito em letra normal no ecrã do telemóvel, sem corações, trevos da sorte, ursinhos com os olhos em formato do coração. Amo-te. Escorraçando os simulacros do amor, deixando que a palavra se impusesse poderosa, uma fisga que me arrancava do desconfortável presente para me arremessar esperançosa num futuro feliz. Quantas vezes me tinham dito, Amo-te? Poucas, dolorosamente poucas. Os rapazes com quem andei antes do Jorge não tinham idade nem sentimento para tal, o Jorge resguardava-se no protegido Luv u, e os outros Jorges do Tinder não serviam para essas coisas. Mas o Duarte dissera Amo-te, a palavra das fotonovelas da mamã, das sopeiras e dos marujos, a palavra que raramente se dizia por ainda ser cedo para se dizer ou já ser tarde, a palavra que soava mal por o amor não ser português ao contrário da saudade, o Duarte escrevera Amo-te e a palavra segurara-nos os corpos com um tracinho, Amo-te, nada havia mais poderoso do que a doce prisão do amor que ao nos atar a outro, outro nos faz, mesmo que seja a fingir. Não sabendo o que responder, e lembrada da escusada sinceridade do Jorge, escrevi, Eu também. O Duarte respondeu-me prontamente, O teu amor está desfasado do meu vinte e seis minutos, não tem mal, acabaremos por acertar-nos."

Dulce Maria Cardoso in Eliete - a vida normal



sexta-feira, 18 de março de 2022

as noites em bruto

 "Não sabia o que me magoava mais, se a afronta de o Jorge se meter com outras, sabendo que eu podia ver, se a humilhação de os nossos amigos comuns poderem assistir àquilo. Parecia que o meu sofrimento nunca mais teria fim, todos os dias havia posts novos, gostos novos, fotografias novas, novas amizades, eu podia reler as conversas, analisar os emojis, os tempos de resposta, procurar os perfis das outras, ver-lhes as fotografias, Olha-me a figura em que se põe esta putéfia, ouvia-me com a voz da mamã e nem isso me parava. Com o tempo, fui-me habituando e deixei de fazer fitas, sempre me habituei facilmente ao que não podia mudar. Mas nunca fiquei imune à felicidade que as putéfias exibiam nos seus perfis, à infinidade de outras vidas que, de repente, se tornavam acessíveis, temia que a nossa, a minha e a do Jorge, uma vida real e não editada, não aguentasse a pressão das vidas virtuais, temia que os corpos não editados das outras vencessem o meu corpo que, tão imperfeitamente real, se deitava todas as noites em bruto ao lado do Jorge".

Dulce Maria Cardoso in Eliete - A vida normal


quinta-feira, 17 de março de 2022

os maridos das outras

 "Que sortuda, a mulher dele, pensei, não tem de ver o marido a beber litros de cerveja enquanto assiste aos jogos, não tem de ouvir-lhes as ridículas imprecações contra o que considera ter sido uma má jogada nem o riso gutural quando lê o que os amigos dizem no Facebook, a achincalharem os clubes rivais, que sortuda, a mulher dele, por não ser testemunha da raiva absurda que o marido gosta de sentir pelos árbitros, que sortuda por não estar casada com o Jorge, que sortuda por não ser eu."

Dulce Maria Cardoso in Eliete - a vida normal




coisa boa, os clubes de leitura, que nos preenchem os dias cheios de poeiras.