"...para ser lido da mesma forma como muitas vezes os gatos entram na nossa vida... ou seja, ao acaso..."
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sábado, 19 de setembro de 2020
quinta-feira, 17 de setembro de 2020
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
terça-feira, 15 de setembro de 2020
sábado, 25 de julho de 2020
quarta-feira, 8 de julho de 2020
use papel em vez de plástico e não se esqueça de plantar mais árvores.
tempos houve em que trabalhei com um Eng. Florestal que tinha a seguinte teoria:
em vez de reciclar, que implica a utilização de imensos produtos químicos para tratar e branquear o "novo" papel, devia-se enterrar o papel usado. É que daqui a uns milhares de anos voltará a transformar-se em petróleo.
eu concordo com a mensagem da caixa se se pretender dizer:
use papel em vez de plástico e não se esqueça de plantar mais árvores.
domingo, 5 de abril de 2020
Dia 20 e 21* - "apenas o trocamos por outro"
«Eu sempre achei que os crentes eram pessoas que se sentiam fracas e por isso veneram algo forte.»
«Isso é o que eles pensam. O adorador dota de poder o objecto adorado, um poder real, não um poder imaginário, é esse o sentido da prova ontológica, uma das ideias mais ambíguas que os homens alguma vez tiveram. Mas este poder é uma coisa temível. O nosso deus é feito dos nossos desejos e dos nossos apegos. E quando nos desligamos de uma coisa, outra surge de imediato, à maneira de consolação. Nós nunca renunciamos inteiramente a um prazer, apenas o trocamos por outro. Toda a espiritualidade tende a degenerar em magia, e o uso da magia tem implícito uma nemésis automática, mesmo quando o espírito foi purgado dos hábitos mais grosseiros. A magia branca é uma magia negra. E qualquer intromissão menos que perfeita no mundo espiritual pode gerar monstros para os outros. Os demónios usados para o bem podem continuar por aqui e depois provocar estragos. O ultimo feito é abdicar completamente da magia, pôr fim aquilo a que chamas superstição . Mas como é que isso acontece? A bondade significa renunciar ao poder e agir negativamente sobre o mundo. Os bons são inimagináveis.»
O Mar, o Mar
O Mar, o Mar
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quarta-feira, 11 de março de 2020
sábado, 7 de março de 2020
27...
...botões de flor por abrir -
também o meu saco de poemas
continua fechado
também o meu saco de poemas
continua fechado
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| ...melhor que Mandalas... |
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
"estou a viver em mim como num comboio a andar"
"Não entrei de livre vontade, não pude escolher, nem conheço o local de destino. Um dia, num passado remoto, acordei no meu compartimento e senti esse rolar. Era excitante, escutei o matraquear das rodas, pus a cabeça fora da janela, senti o vento e exultei com a velocidade com que as coisas passavam por mim. Desejei que o comboio nunca mais interrompesse a viagem. De maneira nenhuma quis que ele ficasse parado para sempre.
Foi em Coimbra, num banco duro de um auditório, que me tornei consciente: não posso sair. Não posso mudar de linha nem de direcção. Não sou eu que determino a velocidade. Não consigo ver a locomotiva nem reconhecer quem a conduz, ou se o maquinista é ou parece ser de confiança. Não sei se ele lê bem os sinais e se se apercebe quando uma agulha é mal mudada. Não posso mudar de compartimento. Vejo pessoas a passar pelo corredor e penso: se calhar, nos seus compartimentos tudo é diferente. Mas não me posso levantar e ir ver, um revisor que eu nunca vi, nem irei ver, fechou e selou a porta do meu compartimento. Abro a janela, debruço-me o mais possível para fora e vejo que todos os outros passageiros fazem o mesmo. O comboio descreve uma curva suave. As ultimas carruagens ainda estão dentro do túnel e as da frente já lá entraram novamente. Será que o comboio descreve constantemente o mesmo circulo, sem que ninguém se aperceba disso, nem mesmo o maquinista? Não faço a mínima ideia do tamanho da composição. Vejo os outros todos a esticarem o pescoço, na esperança de poderem ver e perceber alguma coisa. Saúdo-os, mas a deslocação do ar arrasta as minhas palavras.
A iluminação no compartimento muda, sem que tenha sido eu a determinar essa alteração. Sol e nuvens, crepúsculo e madrugada, chuva, neve, tempestades. A luz do tecto é mortiça, torna-se mais clara, um brilho ofuscante, começa a tremeluzir, apaga-se, regressa, é uma lamparina, um castiçal, um tubo de néon cintilante, tudo ao mesmo tempo. O aquecimento não é fiável. Pode acontecer que comece a aquecer quando faz calor e falhe quando está frio. Tento accionar o interruptor, ouve-se o clic-clac, mas nada muda. Estranho é que também o sobretudo não me aqueça de uma forma contínua. Lá fora, as coisas parecem levar o seu rumo habitual e lógico. Talvez isso aconteça também nos compartimentos dos outros? De qualquer forma, no meu tudo se passa de um modo diferente daquele que eu poderia esperar. Completamente diferente. Estaria o construtor bêbado? Seria um louco? Um charlatão diabólico?"
"Nos compartimentos encontram-se disponíveis horários. Quero saber quais são as paragens. As folhas estão vazias. Nas estações onde paramos as localidades não estão sinalizadas. Lá fora, as pessoas lançam olhares curiosos ao comboio. Os vidros estão sujos pelo frequente mau tempo. Penso: eles deturpam a imagem do interior. De repente, sinto necessidade de pôr ordem nas coisas. A janela está empenada. Grito até ficar rouco. Os outros passageiros batem nas paredes indignados. Por detrás da estação surge um túnel que me corta a respiração.Quando saímos do túnel, pergunto-me se alguma vez parámos de facto.
O que é que se pode fazer durante a viagem? Arrumar o compartimento. Fixar os objectos, para que não se ponham a trepidar. É então que sonho que a pressão do ar deslocado pelo comboio aumenta e rebenta com a janela. Tudo o que eu penosamente consegui arrumar e fixar voa à minha volta. Os sonhos, aliás, são constantes durante a viagem sem fim: sonhos em que não consigo apanhar o comboio e em que me deixo enganar por indicações falsas de horários; de estações que se esfumam num nada, assim que chegamos; de guarda-linhas e chefes de estação que surgem, de repente, com os seus bonés vermelhos, absortos, a fitarem o vazio. Por vezes, acabo por adormecer de puro tédio. Mas é perigoso adormecer, só muito raramente acordo recomposto e satisfeito com as transformações. Quase sempre, aquilo que encontro ao acordar, tanto no interior como no exterior, deixa-me confundido e infeliz.
Outras vezes, assusto-me e penso: a qualquer instante o comboio pode descarrilar. Sim, é verdade, na maior parte das vezes esse pensamento assusta-me. No entanto, há instantes, raros e incandescentes, em que a fantasia me trespassa como um raio de felicidade."
"Acordo, e a paisagem dos outros voa perante o meu olhar. Por vezes, a uma tal velocidade que eu nem tenho tempo de acompanhar os seus caprichos e delirantes disparates; outras vezes, quando insistem em repetir sempre as mesmas coisas, tudo se torna de uma lentidão dolorosa. Sinto-me aliviado por haver um vidro que nos separa. Assim, consigo reconhecer os seus planos e desejos, sem que eles me possam atingir impunemente. Sinto-me contente quando o comboio atinge a sua máxima velocidade e eles desaparecem. O que fazemos com os desejos dos outros, quando eles nos atingem?
Pressiono a testa contra a janela do compartimento e concentro-me com toda a minha energia. Quero, pela primeira vez, sentir e agarrar aquilo que se passa lá fora. Apreender e compreender, com todas as fibras do meu ser, para que não me escape novamente. Mas falho. Tudo se passa demasiado depressa, mesmo quando o comboio pára em pleno campo. As impressões sobrepõem-se e apagam-se constantemente. A memória aquece, tento desesperadamente organizar as sequências das várias imagens, num esforço inútil por chegar à ilusão de algo inteligível. Mas, por mais que a luz da atenção corra atrás das coisas, chego sempre atrasado. Quando chego, já tudo passou. Acabo sempre derrotado. Nunca estou presente. Mesmo quando, durante a noite, o interior do compartimento se espelha no vidro da janela.
Amo os túneis. São para mim um símbolo de esperança: há-de chegar o momento em que a luz iria surgir. Caso não seja noite.
Por vezes, recebo visitas no compartimento. Não sei como isso é possível, com a porta trancada e selada, mas acontece. Na maior parte das vezes, a visita chega a horas impróprias. São pessoas vindas do presente e do passado. Aparecem e desaparecem como muito bem lhes apetece, não têm respeito e incomodam-me. Tenho de falar com elas. É tudo provisório, descomprometido, votado ao esquecimento; o tipo de conversas que se têm nos comboios. Alguns dos visitantes desaparecem sem deixar rasto. Outros deixam rastos pegajosos e fétidos, o arejar de nada ajuda. Nessas alturas, quero arrancar todo o equipamento do compartimento para o trocar por outro novo.
A viagem é longa. Dias há em que a desejo infinita. São dias invulgares, preciosos. Depois há outros em que fico aliviado por saber que irá surgir um derradeiro túnel em que o comboio acabará por parar para sempre."
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O livro...
.... comeu o filme...
...ao pequeno-almoço.
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
já não vão e vêm todos os anos
todos os dias olho para cima e elas lá estão.
todos os dias sorrio quando as vejo.
algumas vezes vejo pela janela uma delas regressar em voo com comida no bico.
elas já não vão e vêm porque encontraram o seu espaço.
de vez em quando as gaivotas rondam o ninho e ambas ficam alerta.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
linguagem não verbal
...nunca tinha estado tão perto destes magníficos animais, quero dizer, assim tão livres. Não sei se foram abandonados. Estão relativamente bem tratados e nesta época do ano erva não lhes falta. Fizeram uma exibição de vitalidade, vigor, força, velocidade que me deixaram um pouco receosa mas completamente siderada. Porquê essa demonstração? O espaço tinha sido invadido? Queriam fazer amizade? Quando se encheu a caldeira do poço de água fresca, eles aproximaram-se e beberam sofregamente, talvez durante uns dez minutos. A seguir foram à sua vida e não mais se aproximaram.
Os humanos têm uma enorme dificuldade em perceber a linguagem não verbal de tanto se utilizar e abastardar por vezes a linguagem verbal. Para mim foi uma lição de humildade perante a inteligência destes animais.
É preciso estar alerta de todos os sinais até com os humanos... eu desconfio que 99% me passam ao lado.
...mais nada do que água...
Os humanos têm uma enorme dificuldade em perceber a linguagem não verbal de tanto se utilizar e abastardar por vezes a linguagem verbal. Para mim foi uma lição de humildade perante a inteligência destes animais.
É preciso estar alerta de todos os sinais até com os humanos... eu desconfio que 99% me passam ao lado.
...mais nada do que água...
domingo, 2 de fevereiro de 2020
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
sábado, 11 de janeiro de 2020
quinta-feira, 10 de junho de 2010
as estrelas pestanejam frio
Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossivel de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossiveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossivel de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!
Alvaro de Campos in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa de Eugénio de Andrade
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossivel de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossiveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossivel de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!
Alvaro de Campos in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa de Eugénio de Andrade
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